a sonda ao redor

A partir de questionamentos sobre a percepção ambígua – ora dilatada, ora fatalista – do tempo e a aparente distância que os fatos noticiosos guardam de nós, “pessoas comuns”, o jornalista Daniel Benevides estabelece um recorte pouco provável de dois fatos interdependentes: a chegada da sonda Juno a órbita de Júpiter e o resgate do garotinho japonês que foi deixado em uma floresta por seus pais, como castigo. O texto marca o início da colaboração do jornalista com Luanna Jimenes durante a ONDA#5.

É relativamente simples ignorar o mundo à nossa volta. A abundância de notícias – fatos a serem conhecidos, discutidos, divulgados – é tão desconcertante em sua mesmice quanto o incrível arsenal de dispositivos que lançamos mão para fecharmo-nos em nossas bolhas, ensimesmados. A tela luminosa que nos permite entrever o mundo é a mesma que nos fecha para ele. Easy come, easy go, como dizem nos filmes norte-americanos.

Até os objetos imóveis são transitórios, que dirá os que descrevem trajetórias no espaço. Júpiter e o pequeno japonês foram encontrados, cada um pela sonda que lhes cabia. O que poderá ser relevante quanto tudo está em constante movimento?!

"Fomos longe demais", diz Takayuki Tanooka, pai do menino achado após 6 dias perdido.

JUNO ESTÁ PRÓXIMA DE JÚPITER por Daniel Benevides

Juno está próxima de Júpiter. E bem longe da Terra – cerca de 800 milhões de quilômetros. A sonda espacial entrou na órbita do gigante gasoso no dia 4 de julho. Chegou a 4.500 quilômetros das primeiras nuvens do que parece ser uma atmosfera de enormes proporções, viajando a 250 mil quilômetros por hora. Não se sabe o que existe além das faixas coloridas que envolvem o maior e mais antigo planeta do sistema solar. Pode ser um núcleo rochoso ou uma massa compacta de gases.
Pode ser um feto, de tamanho mitológico.
Não se sabe, tampouco, o que é aquela mancha vermelha em sua face, que mais parece o olho de uma tempestade permanente.
Juno dará trinta voltas em Júpiter, durante 20 meses. Um ritual de acasalamento. Juno veste um cinto de castidade para proteger seus equipamentos. Um cofre de titânio. 200 quilos. O poder magnético de Júpiter é extremamente forte. Atrai e acelera partículas de alta energia, que vêm do Sol. Pode destruí-la antes que ela colete os dados sobre a origem do astro. Sobre sua formação. Sobre a possibilidade de vida em uma de suas luas, Europa, onde há água. Pois há pouca água em Júpiter.
No carro abafado de seus pais, o menino se entedia. Yamato Tanooka, de sete anos, olha pela janela. Estão em algum ponto de Hokkaido, ilha ao norte do Japão. Ele quer fazer parte do que vê. Quer sair de dentro, explorar o redor. Mexe nos bolsos. Encontra um punhado de pedras. Minúsculos asteroides.  Aperta o botão, o vidro desce. A curiosidade é despertada pelo campo magnético dos outros carros que passam. Cores, luzes, ruídos. Carros e pessoas. Atira as pedras. Elas partem em curvas elegantes e batem nos metais das portas, na cara dos passantes. Yamato sonda a reação. Qualquer reação. Insiste. Insiste até se dar conta de que uma explosão maior se aproxima. É seu pai. Ele o abandona na beira da estrada, na beira de um universo desconhecido. Um castigo, senão divino, de enormes proporções.
Passa seis dias na órbita de uma floresta. Uma órbita labiríntica, que o leva a uma cabana. Não de titânio, mas de madeira. O suficiente para protegê-lo dos ursos que rondam a região.  Encontra dois colchões. Está exausto e com medo. Deita-se em posição fetal. Em torno dele giram sons inexplicáveis, corpos estranhos, sombras de formas indecifráveis. O tempo deixa de ser tempo. O espaço se condensa. Há apenas uma torneira, da qual pinga água, lentamente. Eternamente, diria-se.
Quando encontrado, dois quilos mais magro, Yamato está olhando para cima, por uma brecha no telhado tosco. Olha para algum ponto a milhões de quilômetros dali. Talvez, por alguma razão que a razão desconhece, consiga ver Juno, em sua trajetória até Júpiter.
Juno, a suicida.

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