como criar para si um corpo sem órgãos?

A visão radical de Antonin Artaud sobre um Corpo sem Órgãos inspirou Gilles Deleuze e Félix Guattari a retomar o conceito como umas das tarefas da esquizoanálise – o nome dado à vertente clínica de sua teoria do desejo. A dupla vira a psicanálise do avesso ao propor um único objetivo: que a máquina revolucionária, a máquina artística e a máquina analítica se tornem peças e engrenagens umas das outras.

O INDIVÍDUO ENQUANTO MÁQUINA DESEJANTE

“Como Criar para Si um Corpo sem Órgãos” é um dos Mil Platôs que o filósofo Gilles Deleuze e o psicanalista Félix Guattari construíram depois de, em O Anti-Édipo, dinamitar as categorias em que a psiquiatria e a psicanálise enquadram o desejo. Os dois volumes formam Capitalismo e Esquizofrenia, importante obra do pós-estruturalismo e do pós-modernismo. 

A primeira publicação data de 1972 e trata de uma reação à psicanálise, atuando como uma crítica tanto ao inconsciente desenvolvido por Freud quanto à sua interpretação do conceito de “desejo” como falta. Pelo contrário, Deleuze e Guattari entendem o inconsciente como produção desejante, ao invés de falta a ser preenchida. Esta virada possibilita uma visão completamente nova da prática psicanalítica e implica também uma abordagem militante e política do indivíduo.

Nesta visão, a produção de subjetividades é inseparável da análise social do sistema capitalista, já que este reduz o indivíduo a uma condição neurótica, pois precisa reprimir seu corpo desde a infância para recalcar a produção desejante; sendo o complexo de Édipo um dos principais fatores que o impossibilitam a constituir outros modos de vida. E essa repressão acontece, entre outras maneiras, com a ordenação compulsória dos órgãos em unidades funcionais – os organismos.

O organismo subordina o corpo a ter uma utilidade, pois ele se insere em nossa sociedade para realizar determinados fins. Neste processo, o desejo se organiza em agenciamentos de poder (ver vídeo ao lado) e, justamente por isso, está sempre para fora do sujeito, externo.

É precisamente este movimento o responsável por transformar o órgão em um instrumento de algo para além dele mesmo, neste caso, o social. E, nesse processo, o indivíduo sente-se preso, fraco e infeliz.

COMO CONSTRUIR UM CORPO SEM ÓRGÃOS

A crítica dos autores à psicanálise aponta para o fato de que, ao interpretar o fantasma, ela se concentra apenas em recuperar o passado e assim se prende aos vínculos da subjetivação e da significação. Mas um CsO é outra coisa:

“O CsO é o que resta quando tudo foi retirado. E o que se retira é justamente o fantasma, o conjunto de significâncias e subjetivações. A psicanálise faz o contrário: ela traduz tudo em fantasmas, comercializa tudo em fantasmas, preserva o fantasma e perde o real no mais alto grau, porque perde o CsO.” – Mil Platôs, vol. 3

Ou seja, para chegar ao corpo sem órgãos, é imprescindível ir além da psicanálise, preocupada demais em reencontrar o eu do sujeito. Ao contrário, o CsO só pode ser atingido se nos desfizermos do eu: “substituir a anamnese pelo esquecimento, a interpretação pela experimentação”.

A criação de um CsO aponta para a possibilidade de uma interferência do sujeito em si mesmo. Ao se colocar na linha da problematização de como alguém se torna o que é, ele entra em uma nova formação discursiva. No entanto, a fabricação de si mesmo não se dá no sentido de fabricar mais uma uma subjetividade ou de constituir a si mesmo como sujeito, mas, ao contrário, aponta para a necessidade de se esvaziar enquanto tal, ou seja, se “dessubjetivar”.

Isto porque a noção de subjetividade remete a uma estratificação da experiência de si mesmo; consiste em criar para si uma identidade, como um solo firme que ancora certas verdades determinadas. E isto implica em renunciar a todo dinamismo da existência e inserir-se numa perspectiva que recusa a diferença e a mudança. Isto é, implica em negar a própria vida enquanto potência criativa, enquanto devir.

Na construção do CsO, ocorre um deslocamento de regime de signos. As intensidades são sentidas e vividas como afetos múltiplos. Neste cenário, em que uma pessoa pode encontrar um animal, ser afetada por ele e estabelecer um campo de intensidade – um CsO – que possibilite um devir-animal, ou seja, um desejo que o ligue ao animal e proporcione novos agenciamentos. Por isso que um agenciamento não é pessoal, pois depende dos encontros e do CsO:

“(…) instalar-se sobre um estrato, experimentar as oportunidades que ele nos oferece, buscar aí um lugar favorável, eventuais movimentos de desterritorialização, linhas de fuga possíveis, vivenciá-las, assegurar aqui e ali conjunções de fluxos, experimentar segmento por 11 segmento dos contínuos de intensidades, ter sempre um pequeno pedaço de uma nova terra” (idem).

Não se deseja a terra para nela criar raízes, mas como um ponto de fuga para um outro lugar, ponto de passagem. A meta não é o fim, mas a metamorfose de si mesmo.

“É somente aí que o CsO se revela pelo que ele é, conexão de desejos, conjunção de fluxos, continuun de intensidades” (idem)

Um CsO equivale à noção de que não há um dentro e um fora: ambos não passam de uma dobra provocada pela mudança do olhar. Pensar o CsO é experimentar as ligações, as mudanças, as fissuras, as linhas que compõem cada existência e que suscitam a problemática de cada atualidade. Esta experimentação remete ao novo que está por vir. No lugar de legitimar a internalização de uma lógica que subordina o corpo ao julgamento de Deus, essa proposta radical quer pôr fim ao julgamento para que não prive a vida de suas manifestações mais orgânicas. Eis a sua força.

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